É primavera

Às vezes, somos feito jovens em busca da emancipação, da maturidade, sob vias fantásticas que me faz lembrar “Alice no país das maravilhas” que enquanto se dirige a algum lugar não se encontra em lugar nenhum, e a sensação de estar vai além das próprias tramas subjetivas, talvez, o concreto mesmo seja nossas cores, nossos amores.

Anúncios

Ingleses românticos

Amo-te quanto em largo, alto e profundo/Minh’alma alcança quando, transportada,/Sente, alongando os olhos deste mundo,/Os fins do Ser, a Graça entressonhada./Amo-te em cada dia, hora e segundo:/A luz do sol, na noite sossegada./E é tão pura a paixão de que me inundo/Quanto o pudor dos que não pedem nada./Amo-te com o doer das velhas penas;/Com sorrisos, com lágrimas de prece,/E a fé da minha infância, ingênua e forte./Amo-te até nas coisas mais pequenas./Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,/Ainda mais te amarei depois da morte.
(Elizabeth Barrett Browning, por Manuel Bandeira)

Browning ao escrever para Elizabeth:” A vida tem uma significação e o meu dia a dia é procura-la”.

Cecília Meirelles e Mário Quintana

Deixemos La Barca , por hora, mas é incrivel deparar-se com o ‘dom’ desses modernos excêntricos e temperamentais, tímidos e dialéticos, ao meu entender modesto, brilhantes.
Hoje li um texto enorme que basicamente enfatizava a necessidade da comunicação e das objetivadas trocas subjetivas imanentes da intuição humana – o ilixir para percepção do de sempre e diferente, a amistosidade ao discurso que valida ou anula aquilo que se projeta em afirmar-se um substrato. Necessidades.
Entretanto, e o porquê do prólogo e encerramento do texto, respectivamente:

“Levai-me aonde quiserdes
Aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar
sempre inteira” ( Cecilia Meirelles, “Levai-me aonde quiserdes”)

“(…) Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeito amor.”(Mário Quintana, “Amor é síntese”)

Néctar para encerrar o dia.
; )

Calderón de la Barca e o Príncipe Segismundo:

Na obra A Vida é Sonho, de Calderón de la Barca (1600-1681) o príncipe Segismundo vive desde a infância numa prisão escura, acorrentado, tendo sido ali colocado por seus pais em virtude de uma profecia que vaticinava que ele, chegando à idade adulta, traria grandes desgraças ao reino.

Muitos anos depois, o rei arrepende-se e começa a pensar se havia procedido corretamente aprisionando o filho daquele modo. Manda então narcotizá-lo, retirá-lo da prisão e, ao acordar daquele sono estranho Segismundo se vê no palácio real, bem vestido e cheio de jóias. Dizem-lhe que ele é príncipe, e que tudo aquilo que lhe havia acontecido antes teria sido apenas um sonho.

Uma vez investido no seu novo papel, Segismundo, de acordo com a profecia, começa a cometer os desatinos que haviam sido anunciados quando do seu nascimento. Sem conseguir suportar seus desmandos e loucuras, o rei faz a operação inversa: narcotiza-o, despe-o das roupas caras e das jóias e encerra-o novamente no escuro calabouço, preso a grossas correntes.

Ao acordar, Segismundo se lamenta, preso entre o sonho e a realidade, numa das mais belas páginas poéticas já escritas.

1

É certo; então reprimamos

esta fera condição,

esta fúria, esta ambição,

pois pode ser que sonhemos;

e o faremos, pois estamos

em mundo tão singular

que o viver é só sonhar

e a vida ao fim nos imponha

que o homem que vive, sonha

o que é, até despertar.

2

– Sonha o rei que é rei, e segue

com esse engano mandando,

resolvendo e governando.

E os aplausos que recebe,

Vazios, no vento escreve;

e em cinzas a sua sorte

a morte talha de um corte.

E há quem queira reinar

vendo que há de despertar

no negro sonho da morte?

3

– Sonha o rico sua riqueza

que trabalhos lhe oferece;

sonha o pobre que padece

sua miséria e pobreza;

sonha o que o triunfo preza,

sonha o que luta e pretende,

sonha o que agrava e ofende

e no mundo, em conclusão,

todos sonham o que são,

no entanto ninguém entende.

4

– Eu sonho que estou aqui

de correntes carregado

e sonhei que em outro estado

mais lisonjeiro me vi.

Que é a vida? Um frenesi.

Que é a vida? Uma ilusão,

uma sombra, uma ficção;

o maior bem é tristonho,

porque toda a vida é sonho

e os sonhos, sonhos são.

Manet, sobre o Rio de Janeiro – século XIX

“Do porto do Rio de Janeiro”

Querida mamãe,

Contei-te na minha última carta que tínhamos chegado ao Rio de Janeiro. A baía, como disse, é encantadora. Tivemos, enfim, condições de apreciá-la devidamente, pois pudemos desembarcar no domingo seguinte. (…) No domingo após a missa, (…) desembarquei em companhia do senhor Jules Lacarrière, um rapaz da minha idade. Ele conduziu-me à residência de sua mãe, uma modista da rua do Ouvidor, que possui uma pequena casa de campo, bem brasileira, a cinco minutos da cidade. Almocei e jantei em companhia de sua família, que é formada pelo filho mais velho, por um rapazote e por uma filha de 13 anos. Fui recebido por todos de braços abertos. Melhor, impossível! Após o almoço, eu e meu novo amigo saímos para percorrer a cidade, que é de tamanho considerável, mas conta com ruas muito estreitas. Para um europeu com um mínimo de senso artístico, o Rio de Janeiro tem um aspecto bastante peculiar. Pelas ruas vêem-se somente negros e negras, pois os brasileiros saem pouco, e as brasileiras, menos ainda. As mulheres podem ser vistas somente quando vão à missa ou depois do jantar, ao entardecer, quando aparecem em suas janelas. Nessas ocasiões, é possível olhá-las sem nenhum impedimento. Durante o dia, ao contrário, se por acaso alguma delas é avistada na janela e percebe que está sendo observada, imediatamente se retira. Neste país, todos os negros são escravos e têm um aspecto embrutecido. O poder que os brancos exercem sobre eles é extraordinário. Tive a oportunidade de visitar um mercado de escravos: espetáculo bastante revoltante para nós. Os negros vestem, em geral, uma calça e, por vezes, uma blusa curta de pano grosseiro, não lhes sendo permitido, dada a sua condição de escravos, o uso de sapatos. As negras andam nuas da cintura para cima, portando algumas vezes um lenço atado ao pescoço, que cai sobre o peito. Em geral são feias, ainda que tenha visto algumas bem bonitas. A maioria se arruma com muito gosto: umas usam turbantes, outras arranjam os cabelos crespos com muita arte e todas vestem umas saias decoradas com enormes folhos. As brasileiras são, em geral, muito bonitas. Seus olhos e cabelos são magnificamente negros. Todas penteiam-se à chinesa, saem às ruas descobertas e, tal como nas colônias espanholas, vestem-se com uma roupa muito leve, que não estamos acostumados a ver. As mulheres aqui nunca saem sós, mas sempre acompanhadas de suas negras ou de seus filhos, já que se casam com 14 anos ou menos. Visitei várias igrejas. Nenhuma delas é comparável às nossas: são cobertas de dourado e totalmente iluminadas, mas sem qualquer gosto. Há, na cidade, diversos conventos, entre os quais um convento italiano, onde os religiosos usam capuz e uma longa barba. Nesta cidade, utiliza-se somente papel-moeda ou moedas de cobre, e tudo é terrivelmente caro. As brasileiras do Rio fazem-se transportar em palanquins, mas há também carros e ônibus puxados por mulas, que aqui fazem as vezes dos cavalos. Ia me esquecendo de comentar que o palácio do imperador é um verdadeiro casebre, bastante mesquinho. De resto, o governante quase não ocupa esse prédio, preferindo antes residir num castelo de nome São Cristóvão, situado a pouca distância da cidade. (…)

Adeus, querida mamãe. Encerro esta carta, pois vai partir um paquete inglês. Abraço-te ternamente, assim como a papai, meus irmãos, a vovó, a Jules etc. Manda lembranças minhas a titia, a Edmond e a Marie.

Teu filho respeitoso,

Edouard Manet.

(MANET, 2002, p. 54).

Carta escrita em 1848 pelo pintor francês Edouard Manet (1832-1883), quando de sua viagem ao Rio de Janeiro a bordo do navio Havre et Guadaloupe.

A independência do Brasil

Em Lisboa, os ares sopram dúbios em direção ao reino português, e o rei, muitas vezes tido um paspalhão e medroso aos olhos dos franceses, primazia pelos acordos e uma política apaziguadora de meios termos, que viesse  agradar Bonaparte e ao mesmo tempo a Inglaterra, sem que ambos soubessem disso. E, segundo Eric Hobsbawm, assim como o rei de Portugal mantinha certa cordialidade com nações rivais, espanhóis e franceses a partir do “Tratado de Fontainebleu” marcham na calada rumo a Lisboa para submeter o reino português ao espanhol, pois,  a hegemonia napoleônica estava longe de ser uma quimera.

A possibilidade de a casa portuguesa ter uma corte no além mar já havia sido pensada antes, mas, mais naquele momento, diante do opressor da Europa.  Dom João selou sua aliança final com a Inglaterra , e no dia 16 de novembro de 1807, a esquadra inglesa , com sete mil homens, chega a Lisboa para cuidar da viagem da família real até o Brasil. Desse modo,  em 30 de Novembro de 1808, a esquadra real composta  de oito naus, três fragatas, dois brigues, uma escuna de guerra, uma charrua de mantimentos e mais vinte navios mercantes da marinha britânica, zarpou com destino ao Novo Mundo, e , D João VI e sua família segue rumo ao Brasil levando consigo, uma corte de quinze mil pessoas, dentre ministros, conselheiros de estado, oficiais e servidores, fidalgos, militares, nobres e seus familiares, além do aparelho administrativo e burocrático, seu tesouro, secretarias, arquivos e tudo o mais que garantisse o exercício de poder da corte portuguesa  que seria instalada, por prazo indeterminado, no Brasil.

Por mais que o povo português chorasse – como relatou  Schwarcz– a partida de seu rei, sabiam que era o mais prudente, por que o rei não decidira isso sozinho. Certamente, muitos choraram por amigos e familiares que partiram de Lisboa rumo a América, mas também, porque finalmente os terrores de Napoleão pairavam em definitivo sobre os ares dos lusitanos.

Segundo Lúcia Bastos e Humberto Machado, foram,  três meses no atlântico até que pudessem  aportar na Bahia, e mais trinta dias depois, para chegar às terras fluminenses, em dia 8 de março, desembarcando no cais do Largo do Paço(atual Praça XV de Novembro), na cidade do Rio de Janeiro, e adiante, ali estabelecer a nova corte do  reino português. Decerto, o tempo para se preparar a cidade, de modo que suprisse a necessidade da família real e sua corte, fora pouco, entretanto, aos poucos, mas com afinco, a cidade do Rio de Janeiro passa ser moldada ao gosto do rei que não  por acaso, encanta-se com os ares do Brasil. D. João VI, antes tido um rei triste, agora  melhora seus humores e sua saúde. Institui a cidade e demais províncias com a criação de bibliotecas, faculdade de medicina, belas artes, escolas de oficio,  e de prédios públicos.

Segundo Muaze, a corte passa ser custeada, em grande parte, pelos comerciantes de grosso trato – homens possuidores de grande fortuna, muitas vezes construídas pelo comércio ilegal e tráfico negreiro – que em troca de investirem na corte, receberam terras e títulos de nobreza. Artistas, músicos, pintores, escultores e atores europeus dão o ar da graça na terra brasis, ou melhor, na Corte do Reino  e, desse modo, pintam sua beleza e riqueza, além de retratar a família real, sua corte, e a gente brasileira.

Nos anos vinte do século XIX, acontece na Cidade do Porto o movimento “vintista” que pleiteava o retorno do rei junto a corte à Portugal, pois a guerra e Napoleão havia há muito acabado e  o rei não dava o ar de sua graça à seu povo, o “povo do reino”. Os vintistas apoiavam uma política liberal, e temiam o despotismo, e, lembrar da Revolução Francesa remetia-os a sentimentos de mais puro horror, entretanto o maior medo dos vintistas consistia na possibilidade da “metrópole virar colônia” e em definitivo. Após, a Constituição das Cortes, em Lisboa, o rei e sua família vêem-se obrigados a retornar a Portugal, mas antes, deixa seu filho, D. Pedro, príncipe regente, à zelar pela Corte de Portugal no Rio de Janeiro.

Por quatorze anos, o Rio de Janeiro fora a corte do reino português na América, e nesse tempo, não se tem como negar as inúmeras leis que instituíram e estruturaram as políticas econômicas, como abertura de portos, livre comércio, que agora alicerçavam o Brasil que há muito tempo deixara de ser, em absoluto, uma colônia portuguesa para se tornar parte do Reino Lusitano.  Alem disso, muitos portugueses de alta influencia na corte, firmara seus negócios no Brasil, constituíram casamentos com filhas e filhos de brasileiros influentes, alguns portadores de títulos de nobreza dada à riqueza da terra que possuíam, portanto, assim fora formada  uma elite brasileira altamente influente e poderosa.

D. João sabia que o Brasil era um gigante, que agora pensava em seu próprio interesse, e o mais sensato era a construção de um Império Luso-Brasileiro, que certamente tocara a vaidade dos portugueses na Europa. No Brasil, D. Pedro, leva-se pela política da elite coimbrã, cujo maior líder fora Bonifácio. Os coimbrãos, um grupo composto de portugueses e brasileiros, assim denominados por terem estudado na Universidade de Coimbra,  mas que viviam no Brasil,  e apoiava o ideário de um “Império Luso-Brasileiro”. O Brasil elegeu deputados e os enviara as Cortes Portuguesas – concretização do desejo da Revolução do Porto “Vintistas”, em criar Assembléias embasadas em legislação que eliminasse vestígios de despotismos e Antigo Regime –, mas suas propostas quanto a junção de Portugal e o Brasil , e constituição de um Império Luso-Brasileiro, jamais fora considerado, porque  os Vintistas que sequer os levaram a sério, pois não chegaram a um consenso, uma vez  que o grande desejo dos portugueses era que o Brasil voltasse a ser uma colônia portuguesa, que fechasse os portos para outras nações e se submetessem aos portugueses como nos velhos tempos.

Bonifácio adere a elite brasileira – que era composta de maioria brasileira, romântica e apreciadora da literatura referente a Revolução Francesa, no que abordava o ideal de liberdade, entretanto, esta literatura era tida proibida enquanto o caráter despótico napoleônico que a sobrepôs –, e apóia D. Pedro, que sob pressão de, obrigatoriamente, retornar à Portugal, assume uma postura rebelde diante da Corte portuguesa, num gesto que hoje nos é conhecido como  “ O dia do fico”.

Após o célebre Dia do fico, 9 de janeiro de 1822, não demorara a independência política e econômica do Brasil, seria oficializada no dia sete de setembro de 1922.

Evaldo Cabral de Mello enfatiza que a Corte portuguesa no Brasil por beneficiar mais a região centro-sul , resultara na espoliação fiscal – que culminaria nas diversas insurreições que viriam surgir nos períodos regências do Império –   das províncias do norte e nordeste brasileiro. Conclui que a formação de uma burocracia de portugueses e colonos enriquecidos que, principalmente no Rio de Janeiro, e regiões paulistas e mineiras, acabaria, enfim, por liderar a Independência. E, sobre o Brasil ter-se tornado um Estado muito antes de uma Nação, historiadores como Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado, enfatiza-nos que a Independência do Brasil fora uma independência política e territorial. Naquela tempo, via-se nos territórios do Brasil uma grande  diferença no trato administrativo e regional, e certamente, durante o episodio da Independência do Brasil, não havia se criado uma identidade nacional, e sim estatal. Os estados do norte passam a idealizar, então, uma relação com Portugal, uma vez pessimistas com uma política que lhes beneficiassem, enquanto unidade brasileira. Claro, que foram muitos os fatores que influenciaram um ideal separatista nesses estados, sendo um deles o exemplo da fragmentação, em Estados distintos, da América espanhola.

Gosto de ressaltar que, numa opinião muito particular de minha parte, a Independência do Brasil ocorrera  sob romantismo, real, para brasileiros e naturalizados, e abstrato, para os portugueses que não conhecia o Brasil. É bem sabido que a primeira forma de poder cujo  Brasil tenha experimentado, fora sob a égide da Coroa portuguesa, em tempos de corte no Rio de Janeiro, e a continuidade desse poder se dera do mesmo modo, por romantismo, juntos da manifestação política que pleiteava a liberdade econômica e a manutenção da grandiosidade que se revelara no Brasil.

No artigo “A guerra de penas: os impressos políticos e a independência do Brasil”, Lucia Maria Bastos Pereira Neves, revela-nos as intrigas – através dos folhetins e jornais que circulavam na década de 20 do século XIX nas capitais das províncias no Brasil e dos grandes centros urbanos de Portugal – entre portugueses radicais atacando o Brasil, nas prévias do retorno da família real a Lisboa, comparando o Brasil a um gigante sem braços, além de outros termos pejorativos para adjetivá-lo, entretanto, as criticas dos radicais da Revolução do Porto “Vintistas”, não conseguiram ocultar o romance vivido entre o Brasil e D. João VI que, por várias vezes, declamou  que as águas das praias do Brasil eram águas milagrosas, pois faziam bem a saúde e melhorava os ânimos, e que além do mar, o sol, as belezas e  os frutos da terra eram de um bem sem igual a saúde do corpo e do espírito.

Egipto – Final do II milênio aC.

“Ó, bem-amada. Desde que dormi consigo, você amotinou meu coração.
Quer ele se rejubile ou chore, não se afaste de mim.
Meu coração se apodera de você.
Quando me acho entre os seus braços, faço tudo o que você quiser.
Meu desejo é minha máscara.
Quando vejo você, meus olhos brilham.
Achego-me bem a você, para enxergar o ser Amor.
Essa hora, é a mais bela entre todas as horas, possa ele ampliar-se até a Eternidade.
Gostaria de ir a um lago para banhar-me em tua presença.
É doce entrar no lago e mergulhar diante dos teus olhos.
Mostrar-me diante dos teus olhos.
Mostrar-te a minha beleza, quando a minha veste, neste linho digno de uma rainha, se molha, adere, modelando cada curva deste meu corpo.
Desço à água contigo e entro antes de ti.
Venho ao teu encontro, com um lindo peixe vermelho pousado nas minhas mãos.
Vem ver-me”

Carta de amor em papiro.

Egipto – Final do II milênio aC.

leitura romanceada

Assim escrevera o poeta, romanceando  o momento, e, enquanto o fazia tinha seus olhos cobertos por um manto de lágrimas tão transparentes e preciosas como as águas que deitadas corriam sobre aqueles solos da mais elevada altitude das terras fluminenses, parte de si.

Sua voz traspassou seu tempo e sobrevoou, feito um pássaro errante de mais belo canto, versejou por todos os vales, planícies, planaltos ou  cumes das mais altas montanhas de norte a sul, na vastidão das terras  da Pátria Amada.

Não importasse, para ele, em quais margens da fronteira pudesse se encontrar, que seu canto sempre seria feliz enquanto escutava o pulsar do coração de sua Pátria-Mãe, Terra Adorada.

Michelangelo: um moderno, renascentista , artista que teve alguns versos

“Non ha l’ottimo artista alcun concetto
ch’un marmo solo in sé non circoscriva
col suo soperchio, e solo a quello arriva
la mano che ubbidisce all’intelletto.
Il mal ch’io fuggo il ben ch’io mi prometto
in te, donna leggiadra, altera e diva
tal si nasconde, e perch’io più non viva
contraria ho l’arte al disiato effetto


[“Não tem o ótimo artista algum conceito/ que um só mármore em si não circumscreva/com o que sobra, e a ele só chega/ a mão que obedece ao intelecto./ O mal que fugio, o bem que eu me figuro/ em você, mulher bela, soberba e divina/ assim se esconde/ e como para que eu não viva/ a arte contraria o desejado efeito.”]

As transformações das estruturas econômicas e sociais em términos de Idade Média:

A utopia de Thomas Morus em 1516 :

A principal causa da miséria pública reside no número excessivo de nobres ociosos, que se nutrem do suor e do trabalho de outrem e que, para aumentar seus rendimentos, mandam cultivar suas terras, escorchando os rendeiros até a carne viva. Não conhecem outro gênero de economia. Mas tratando-se, ao contrário, de comprar um prazer, são pródigos (…) E não menos funesto é o fato de arrastarem consigo uma turba de lacaios sem estado e incapazes de ganhar a vida (MORE, 1984).

As transformações das estruturas econômicas e sociais em términos da Idade Média:

I – Estruturas econômicas

Constantinopla, rotas marítimas, burgos e cidades medievais, movimentos comunais e corporações de ofício

Alguns italianos como os venezianos, os genoveses e paduanos, ainda no século XI , sendo comerciantes obtiveram muitos privilégios comerciais em Constantinopla ao ponto de esses privilégios incitar enorme revolta na população local que, como conseqüência, decidiram por expulsarem-nos de Constantinopla  durante o ano de 1182.

Enquanto isto, a economia medieval acontecia da seguinte forma: A economia medieval (feudalismo) predominantemente agrária, era estruturada em torno das relações servis e fraca circulação de moedas. As relações servis, consistia em o camponês ser responsável pela produção  agrária, mas,  também dever obrigações e tributos aos senhores dos domínios territoriais ao qual se encontravam vinculado e produzindo. O tributo era pago em dias de trabalho nas terras dos senhores (corveia), ou com produtos agrícolas. Os excedentes da produção agrícola eram comercializados em feiras ou “burgos1próximos às aldeias camponesas.

Até que, eis que surgem as cidades e os “Movimentos Comunais”, esses movimentos consistiam na luta das cidades em favor de sua autonomia, entre os séculos XI e XIV, e a partir de então, pode-se notar o início do processo de evolução da sociedade européia.

As cidades que possuíam autonomia política , jurídica e fiscal eram chamadas de Comunas e seus habitantes “homens livres”. A “Comuna” obtinha autonomia pela força ou comprando seus direitos aos senhores. Exemplos de regiões mais importantes que se inseriram nos movimentos comunais foram: a região de Flandres (norte da Bélgica – onde as pessoas que falavam o holandês eram denominadas flamencas pela população local) , a Península Itálica com suas cidades-estados, e o Norte da Alemanha.

Nestas cidades se encontravam as “Corporações” de ferreiros , carpinteiros, tecelões, etc. Esses profissionais desenvolviam seus ofícios sob um sistema de hierarquia que consistia em duas figuras bem evidenciadas, a do “mestre” e do “aprendiz”. O ofício contava com o bom desempenho de seus executores que selecionavam as matérias-primas e possuía a estimativa do tempo que seria desprendido para a execução do trabalho, assim como, o domínio da técnica que seria empregada para desenvolver e concluir o trabalho.

O Comércio Marítimo e Comércio Interno-europeu

Durante o século XIII, no ano de 1204, a partir da “quarta cruzada” , os comerciantes italianos se estabeleceram definitivamente em Constantinopla fortalecendo, assim, as “rotas comerciais” que objetivavam a aquisição das riquezas orientais como tapeçaria, tecidos finos e especiarias para comercializá-los na Europa.

Portanto, foi o “comércio marítimo” que trouxera inúmeras modificações a economia do mundo medieval.

As “Rotas Comerciais” se fortaleceram, e cada vez mais os ocidentais almejavam consumir os produtos trazidos do Oriente. Logo, é imprescindível a exigência das moedas para as transações comerciais e as procuras por metais preciosos se tornaram indispensável.

O comércio marítimo incita o comércio no interior europeu que assume feições inter-regionais e internacionais, privilegiando, principalmente as cidades-estados da Itália , da região de Flandres e do Norte da Alemanha, como já vimos, anteriormente. Assim, grandes fortunas vão se formar em torno dos “mercadores” e certas cidades que vão aderir novos significados dentro das estruturas econômicas.

Revolução comercial, segundo Jacques Le Goff:

O “mercador- banqueiro” (meados do século XIII) se serve de letras de câmbio, operação de crédito, de contrato de seguros, de livros-caixas. Este, se destaca dos comerciantes itinerantes que circulam pelas diferentes rotas comerciais.

Componentes da nova economia propiciada pela Expansão Comercial: o mercador, o mecena, o mestre e o aprendiz, a arte e o ofício

O mercador se torna uma prévia de banqueiro dos dias atuais, e possui uma “sede” que eram redes de funcionários distribuídos por toda a Europa. Um bom exemplo de “marcadores-banqueiros” de grande êxito foram das famílias dos Médici de Florença, dos Bardi e dos Peruzzi. Os Médici foram “mecenas” e grandes patrocinadores da Renascença Italiana.

Renascença é um termo moderno do século XVI para se referir as grandes mudanças culturais e manifestações artísticas que se iniciaram na Itália e se expandiram por toda a Europa entre os séculos XIV e XVI. Tendo grandes expoentes nas artes como Petrarca para as letras , e Michelangelo e Leonardo da Vinci nas artes plásticas, dentre outros. Mas, certamente, a Renascença é um tema que merece uma abordagem maior e especial , portanto, abordarei esse tema, inserido na Idade Moderna , mais adiante.

A Cidade é o  Locus privilegiado para a nova economia e  Economia de Mercado e Vida Material convivem lado a lado :

“Vida Material” é o autoconsumo na esfera da família e da aldeia, e, “Economia de Mercado” pressupõe  vínculos com o mercado e extrapolam  a esfera do autoconsumo.” (Fernand Braudel , 1985)

Os “modernos em transição” que tiveram na forma de vida do camponês, quase autônoma e quase autárquica , e, na economia de mercado e um capitalismo em expansão. Contudo, temos que ter cuidado e analisar a “transição dos modernos” em seu conjunto fragmentado.

Segundo Braudel : “a economia moderna” é um fragmento de um vasto conjunto.”

Nota:1 Burgos: Na Idade Média, castelo, ou casa nobre, ou mosteiro, etc., e suas cercanias, rodeados por muralha de defesa, muitos dos quais vieram a transformar-se em cidades.

II – Estruturas Sociais:

A sociedade medieval era classificada segundo a idéia de “tripartição” e destacava os seguintes grupos sociais: o clero (os que oravam e intercedia pelo homem na luta espiritual entre o bem e o mal), a nobreza (homens de guerra que defendiam a morada na terra), e os camponeses (que laboravam a terra e colhiam os frutos para alimentar a todos). As atribuições das funções de cada grupo eram impostas pela Igreja segundo os desígnios de Deus. Nessa sociedade o homem não existia sozinho, ele precisava estar inserido num grupo, e era o grupo que se expressava, portanto não havendo vozes individuais.

A “Tripartição” das classes sociais no mundo medieval não transcorrera perfeitamente bem,  e o antagonismo foi marcante entre as suas classes e entre os indivíduos dentro da própria classe. Os camponeses não eram felizes pelas imposições impostas à eles por seus senhores – laicos ou eclesiásticos – ; os  nobres digladiando entre si ou com outros reinos; a própria Igreja que também disputavam as terras e as riquezas como veremos adiante nos conflitos gerados entre Papado e o Sacro-Império Romano Germânico,e, ou, perseguindo os ditos grupos “heréticos”, em especial aos “cátaros” e aos “valdenses” , estes,  ambos religiosos que acreditavam que a Igreja deveria ser desprendida de luxos e riquezas, portanto de serem alvos de perseguição dentro da própria ordem.

Para a sociedade de tripartição o comerciante era aquele que exercia uma função secundária e possuía um papel muito pouco relevante ao quadro social da época, como relata, no século XIII, São Tomás de Aquino – um importante intelectual e eclesiástico de sua época – , em um de seus manuscritos e reafirmando, desse modo, os fundamentos das hierarquias tradicionais da sociedade de seu tempo, minimizando, ao mesmo tempo, o papel do comerciante numa sociedade ordenada segundo os desígnios divinos, ele distingue dois tipos de comércio: o comércio necessário – o comércio do sal –, e o comércio do supérfluo – o comércio das sedas e das especiarias – como sendo uma fonte de vícios e corrupção. Entretanto, este comércio supérfluo foi o maior gerador de fortuna na Europa daquela época.

Nesta sociedade de ordens , o individuo apenas existe se inserido numa corporação ou grupo. Desse modo, vale destacar a questão das “guildas”.

As “guildas” foram grupos criados por acordos e consentimento dos seus membros e , nesse sentido são associações livres. Elas têm por objetivo o auxilio mútuo em caso de indigências , incêndios e náufragos, ou seja, uma assistência social em sentido amplo. Exemplo de guildas mais antiga seria a dos “mercadores itinerantes do século XI”.

As transformações sociais:

As transformações sociais se deram sob um conjunto de acontecimentos, mas o mais importante fora o econômico. A economia ditava as cidades e tinha como figura fundamental o “mercador”. Esse mercador, que não se inseria em nenhuma das classes sociais sob ordem de tripartição, se tornara um homem muito rico e sua riqueza era gritante e o processo da aquisição dessa riqueza seguia uma linha continua sem interferes onde a riqueza multiplicava a olhos vistos.

Por mais que não agradasse aqueles que dominavam a “sociedade medieval”, a nova hierarquização das classes fora inevitável e, tão logo, os critérios de riqueza passam a posicionar um novo grupo social com riquezas individuais através de um novo remanejo de elementos sociais, ou seja, novos grupos sociais não apenas ascendem, mas se afirmam na “sociedade medieval”.

A ascensão da Periferia do Mundo Feudal

O antagonismo decorrente dessa relação entre novas formas de riqueza e antigas estruturas sociais será um dos pontos mais cruciais do mundo moderno.

Na complexidade do terreno das estruturas sociais, devemos considerar as particularidades de cada região da Europa, já que as transformações sociais seguem ritmos diferentes em diferentes reinos como na França, na Inglaterra , na Alemanha , na Itália, etc.

Certamente, o centro da civilização medieval se encontrava nas regiões da França que se destacava por sua “arte gótica” e a “filosofia escolástica”, cujo apogeu se deu entre os séculos XII e XIII , contudo as mudanças no que diz respeito às novas formas de comércio iniciam-se sobretudo pela “periferia do mundo feudal” como é o caso da Península Itálica.

Os genoveses, venezianos e paduanos se instalaram e Constantinopla e foram os mercadores pioneiros na rota do comércio marítimo entre Europa e Oriente.Portanto, as cidades do norte da Itália  tornaram-se , a partir do século XIII, lugar de riqueza e de inovações devido à importância crescente do comércio.

Os mercadores criaram as “sedes” de comércio espalhados por toda Europa, e, tornam-se importantes do ponto de vista da riqueza que foram capazes de acumular, aliás, riqueza esta que gerava fascínio e prestigio, mas também desconfiança e conflitos.

Papado x Sacro-Império:

A península Itálica foi , durante boa parte da Idade Média, o palco das disputas entre Papado e o Sacro-Império Romano Germânico – o nome dado a partir do século XV ao império da Europa Central fundada em 962 por Oton I, o Grande, e dissolvido em 1806 –, e, por boa parte da Idade Média, os imperadores do Sacro-Império lutaram contra o Papado e suas aspirações a supremacia –.

Essas disputas territoriais aconteciam pela presença de um grande número de cidades-estados desejosas de manterem as suas autonomias.

Com estruturas sociais e políticas muito diferentes daquelas do centro do mundo medieval, o norte da Península Itálica se torna , sobre tudo, a partir de século XII, a principal frente de batalha das pretensões imperiais contra o Papado. Essas lutas vão contribuir para o enriquecimento do império e fortalecimento dos príncipes.

A Europa se dividiu em campos antagônicos em relação à luta entre sacerdócio e imperador, e havia aqueles que reis e reinos deveriam ser submetidos a um único imperador cristão; ou, que o Império fosse apenas um braço secular do Papado; ou ainda, que houvesse a separação de poder temporal e o poder espiritual , sem que um estivesse submetido ao outro.

Apesar de suas inspirações para reinar toda Europa, o imperador só foi de fato, reconhecido na região da Alemanha dividida em inúmeros principados e cidades.

Vence o Sacro – império:

O Sacro-Império afirma sua autonomia em relação ao Papado, porém acompanha o aumento de poder dos príncipes como afirma a “Bula de Ouro”.

A “Bula de Ouro” – 1356 – decreta que o imperador não mais depende da aprovação do Papado, e, é o conselho formado por oito príncipes que passaram eleger o imperador, porém , os títulos de príncipe permanecem hereditários. Ela , também, estipula que os príncipes têm o poder de constituir exércitos, de cunhar moedas, de fazer a justiça e de criar impostos , por conseqüência disto, o poder do imperado se torna , cada vez mais um poder nominal, mas, ainda assim oferece prestígio e status ao Imperador.

No início da Idade Moderna, o titulo de Imperador será disputado em eleição por Francisco I da França e Carlos I da Espanha que se tornará Carlos V, o último grande imperador do Sacro-Império.

As alianças entre a dinastia dos Habsburgo (Carlos V) e dos reinos de Castela e Aragão , a partir de 1479, formará a Espanha , e, o imperador do Sacro -Império se tornará, ao mesmo tempo, imperador da Espanha, Sardenha e Sicília ao sul da Itália, América, Aragão, Países Baixos e Germânia. O Império vai ser uma peça muito importante para a compreensão do mundo moderno.

França e emergência de classes

A vida da cidade e o destino do homem são fruto da relação conflituosa entre a liberdade humana e a fatalidade do destino, porém, como explicar a nova organização social assinalada por uma nova fonte de riqueza.

Após a acumulação de fortunas em atividades comercias ou financeiras , o comerciante vai buscar o Status e o prestígio, através da compra de terras , de cargos e de títulos de nobreza.

Certamente, muitos comerciantes viram no mercado e comércio um meio para alcançar a nobreza através do acúmulo de riquezas que lhes propiciariam o prestigio ao patrocinarem o crescimento e esplendor de suas cidades, além de aquisição de terras e camponeses, uma exigência para se pleitear o titulo de nobreza, algo muito comum na França por exemplo. E, a venda dos títulos de nobreza a essa nova classe socioeconômica era um negócio bem lucrativo para o rei que continuava com a “velha nobreza” e a “nobreza de toga” em torno de si.

Aos compradores desses títulos de nobreza, eram-lhes imposto que se abdicassem da antiga profissão ao ato de se tornarem nobres. Mas, ser um comerciante era algo que exigia muitas habilidades como certos talentos para o cálculo, e o ter previdência ou mesmo dom, e, não eram todos os integrantes de uma família de mercadores e mecenas que almejavam para si os títulos de nobreza, desse modo, tomaram-se grandes investidores e mecenas,  pessoas privilegiada com grande destaque na sociedade em que viveram como ,por exemplo, os Médici de Florença na Itália.

Itália e o Renascimento do século XVI

As cidades renascentistas recolocaram na ordem do dia a discussão política sobre o governo da cidade e sobre as qualidades do bom governante. Desse modo, voltando se para as Antiguidades Clássicas e considerando-se, por isso, como responsáveis pelo renascimento da verdadeira civilização, as cidades reafirmam a dimensão política como elemento essencial do homem, assim como os antigos que definiam o homem como animal político.

O homem individualizado passa a responder por si mesmo, mas também  a questionar sobre o seu papel no mundo e o seu existir.

Essa individualização do homem já é percebida a parti do século XIII quando  a Igreja passa a  pregar a salvação individual; conjunta a retomada do direito romano entre os séculos XII e XIII, que desconhece a realidade jurídica das corporações  e postula o individuo como único ente do direto. Portanto,seria a retomada da difusão do direito romano um dos elementos mais importante na dissolução da ordem feudal.

As novas estruturas econômicas geram impasse e conflitos que vão propiciar algumas rupturas, mas também, permanência sob uma nova forma de apresentar do antigo. Portanto, será o antagonismo decorrente das relações entre novas formas de riqueza e antigas estruturas sociais, um dos pontos mais cruciais do mundo moderno.