Al-Andaluz – Parte II: A consciência andaluza e a reconquista da cristandade

Na Península Ibérica , o “renascimento cultural” foi algo esplêndido e notável  a partir do desaparecimento político do reino visigodo de Toledo.

Percebe-se uma nova sociedade duplamente dividida, tendo no grupo maior as populações hispano-visigodas, dentre estes: os cristãos, os camponeses de origem pagã ou parcialmente cristianizados, e os judeus praticantes e os judeus batizados no Cristianismo sob forte política visigótica de conversão obrigatória. E num segundo  grupo encontravam-se os invasores muçulmanos de origem árabe, síria, persa, e berbere; estes totalizavam apenas dois por cento da população Ibérica, mas, certamente eram os detentores do poder político e administrativo em Al-Andaluz. Crê-se que é justamente a diversidade do invasor a essência e composição que foi refletida na organização de Al-Andaluz durante o século VIII.

Al-Andaluz conservava regiões inteiras marcadas pelas estruturas de poder, religião e cultura herdadas da cristandade visigótica e romanismo configurando, a partir deste ponto,  uma política de tolerância do califado aos costumes anteriormente vigentes na Península Ibérica, que faz despontar aspectos de civilização sobre a sua nova sociedade.

A centralização político-administrativa e cultural dos árabes trouxera uma metamorfose profunda ao universo artístico, cientifico literário, filosófico e tecnológico à Península Ibérica.

A economia enriquecida através das novas técnicas de agricultura, como a irrigação um incremento  dos  invasores – engenheiros e mecânicos hidráulicos – à Península Ibérica. Essas novas técnicas de cultivo e a introdução de novas lavouras como a de arroz, cana-de-açúcar, tâmaras, frutas cítricas, diversos tipos de verduras, dentre outras, antes obtidos pela população ibéricas através de importações do Oriente, agora eram produzidas e altamente comercializadas pela população andaluza. As conseqüências de um comércio urbano e uma economia agro-exportadora trouxeram riquezas além de  propiciar as trocas culturais em Al-Andaluz.

Historiadores como, Youssef Haym Yerushalmi, Thomas Glick, e Roger Collins, apontam entre os  séculos IX e X, uma verdadeira revolução intelectual em Al-Andaluz sob o Califado de Córdoba. Um fenômeno social chamado de consciência andaluza , foi o ápice cultural que se deu sob um conjunto de reflexões existenciais e metafísicas elaboradas sob influencia do pensamento grego, sobretudo de Aristóteles e da literatura rabínica judaica.

É importante destacar, advindo do oriente persa, os pensamentos do filósofo Avicena (Abu Ali Ibn Sina, 980-1037) e do Ocidente Islâmico o pensador Averróis(1126-1198) natural de Córdoba e responsável pelas principais compilações e comentários sobre a obra de Aristóteles na Península Ibérica. Averróis, a partir da segunda metade do século XII, influenciou profundamente o pensamento judaico e cristão dos andaluzos, pois suas obras eram requisitadas e encomendadas por governantes muçulmanos e cristãos. Para Averróis , Aristóteles era completo e perfeito em seus estudos de lógica, física e metafísica.

Uma cultura irradiada a partir de grandes centros como Córdoba e Toledo, foi muito bem documentada através dos escritos de Al-Hadrami, um escritor que visitava a cidade em pleno século X, nos revela a famosa “ corrida aos livros”. Ele nos relata que estava  num acirrado leilão tentando arrematar e comprar um livro que tinha enorme interesse, quando conversando com seu concorrente à compra, descobriu que em Al-Andaluz, era o livro  um bem intelectual , guardado nas bibliotecas domésticas, um hábito semita presente na população andaluza, mas ,  também algo tido como uma preciosidade de grande valor material. Logo, Al-Hadrami descobriu que o seu oponente havia arrematado o livro porque cria ser o livro um bem, independentemente de seu conteúdo, e também porque lhe serviria em perfeito para completar o “vão” que tinha em uma das prateleiras de sua biblioteca.

A cultura judaica andaluza, também buscou recuperar a filosofia aristotélica, com a fusão dos conhecimentos sobre o universo e sobre a alma. Nas Aljamas – comunidade composta por indivíduos que formavam a religião judaica em territórios muçulmanos e cristãos – era notável os filósofos sefaraditas exercendo diversos papéis sociais como, rabinos, matemáticos, astrônomos e, sobretudo, médicos. Conhecer criação e  criatura divinas e suas expressões terrenas permitiam que a medicina e ciências do corpo fossem exercidas em plenitude.

Judeu de Córdoba,  Hasdai ibn Shaprut foi um médico e diplomata na corte do califa que procurou colaborar para a harmonia entre as relações com os reinos cristãos do norte da Península Ibérica. Como homem de estado viabilizou a instalação da primeira academia talmúdica de Al-Andaluz, trazendo mestres, como Moshe bar Hanokh, da literatura e da filosofa rabínicas da Babilônia, que era núcleo de produção intelectual judaica na Idade Média.

José ben Yehuda ibn Aknin, em sua obra intitulada “Cura das almas doentes” do ano de 1180, discute sobre os principais saberes necessários à educação judaica, dentre estes saberes: Ler e escrever; Torá – termo hebraico para o conjunto dos cinco livros que compõem o cânone denominado Pentateuco, cuja compilação final acredita-se ter sido concluída por volta do século IX a. C –, Mishná – conjunto textual de origem rabínica contendo a gama de discussões orais elaboradas pela intelectualidade religiosa judaica da Judéia romana, entre os séculos I e II d.C.– e gramática hebraica; Poesia; Talmude – conjunto de estudos filosóficos e jurídicos, exegéticos e literários elaborados em academias rabínicas do norte da Palestina e da Babilônia, entre os séculos IV e VI d. C. O Talmude, em suas duas versões, a de Jerusalém(Yerushalmi) e da Babilônia (Bavli) utilizou como base todos os tratados mishnaicos, servindo de grande orientação para as comunidades religiosas judaicas de todo o Oriente e do Mediterrâneo–; Matemática e aritmética; astronomia; ciências naturais e medicina; Lógica; Filosofia; dentre outras.

Não menos notável que os demais, o rabi Moshe ben Maimon, ou Maimônides (1135-1204), era médico, físico , filósofo,  matemático e astrônomo, sendo talvez um dos maiores expoentes da cultura judaica ibérica medieval. Ele nasceu em meio uma ruptura do universo de tolerância de Cordova, onde viveu com sua família. Por várias vezes, ele precisou exilar-se em Fustat (atual Cairo, Egito) quando os almôhadas tomaram a sua cidade natal, submetendo os judeus ao juramento de fidelidade a Allah e as suas leis inscritas no Corão. Talvez por isso, Maimônides tornara-se um critico do uso da religião como instrumento de opressão, de violência e de dominação sobre os povos, de um modo geral. É sabido de suas cartas dirigidas aos judeus iemenitas e franceses, onde ele cita exemplos históricos de todos os governantes que um dia fizeram uso desse tipo de violência contra os descendentes de Israel e, segundo  ele, nenhum destes opressores conseguiu se perpetuar no poder. Mas, a riqueza de sua obra consistia em sua  indagação conjunta a  metafísica e preocupação com a saúde física e espiritual; produziu vasta literatura epistolar, na qual oferecia orientação, assistência religiosa e social a diversas comunidades judaicas do Oriente, como as de Lêmin , e da Europa Ocidental , como as de Marselha e Toulouse.

O califado de Córdoba é invadido por tribos como os almorávidas , e posteriormente, almôhadas, ambas tribos radicais vindas do norte africano, a partir de então, a fragmentação do califado de Córdoba  percebe-se no surgimento de vários reinos, as taifas. Essas tribos passam a perseguir e obrigar os dhimmis , os protegidos pelos muçulmanos, a conversão obrigatória a Allah e ao Corão. Pressionados , os dhimmis, a partir de então, passam a buscar refugio nos reinos cristãos do  norte da Península como, Aragão, Castela e Leão, ou regiões de domínio muçulmano como o Império Parto (persa), o Egito (califado fatímida) ou Marrocos.

Diante da fragmentação do califado, os reinos cristãos do norte da península reforçam seu sonho de reconquista da cristandade na Península Ibérica, e no século XI, inicia-se  a “Marca Hispânica”um projeto político-religioso de “reconquista”, pela retomada dos exércitos cristãos nas regiões setentrionais e  nordeste da Península. Esse projeto veio concluir-se no século XV, em 1492, com a tomada da última taifa ibérica, o reino de Granada, com a instauração de políticas de conversão obrigatória  de todos os invasores ao cristianismo, ou da expulsão aos contrários a esta conversão religiosa. Todos os muçulmanos deveriam ser banidos da Espanha dos Reis Católicos.

Os Cristãos do norte espanhol era uma sociedade de fronteira, sob instabilidade habitacional e mobilidade das condições de vida. Mesmo que depois da definição das políticas nas terras ocupadas pelos reinos cristãos, as fronteiras também compunham área de movimento migratório, fossem de soldados, ou homens livres, ou camponeses ou religiosos peregrinos, todos rumavam ao centro-sul da Península Ibérica.

Segundo Jacques Le Goff , em sua obra “A civilização do Ocidente medieval: a Dinâmica e inconfundível capacidade de mobilidade” : Havia a movimentação de homens por nada ou por muito pouco terem. Estes  homens estavam sempre indo para algum lugar, como peregrinos. Todas as camadas sociais se movimentavam, assim, os cavaleiros em busca de  prestigio e butim na guerra; os camponeses, a procura de novas terras para cultivo e melhores condições de vida; mercadores, novas cidades para estabelecerem novos negócios; clérigos e monges, em busca de novas almas para serem convertidas; os sábios, a procura de novos conhecimentos. A mobilidade na Península Ibérica, numa óptica espacial, cultural e social culminou em problemas de repovoamento, colonização, rejeição e novos confrontos.

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