As transformações das estruturas econômicas e sociais em términos de Idade Média:

A utopia de Thomas Morus em 1516 :

A principal causa da miséria pública reside no número excessivo de nobres ociosos, que se nutrem do suor e do trabalho de outrem e que, para aumentar seus rendimentos, mandam cultivar suas terras, escorchando os rendeiros até a carne viva. Não conhecem outro gênero de economia. Mas tratando-se, ao contrário, de comprar um prazer, são pródigos (…) E não menos funesto é o fato de arrastarem consigo uma turba de lacaios sem estado e incapazes de ganhar a vida (MORE, 1984).

As transformações das estruturas econômicas e sociais em términos da Idade Média:

I – Estruturas econômicas

Constantinopla, rotas marítimas, burgos e cidades medievais, movimentos comunais e corporações de ofício

Alguns italianos como os venezianos, os genoveses e paduanos, ainda no século XI , sendo comerciantes obtiveram muitos privilégios comerciais em Constantinopla ao ponto de esses privilégios incitar enorme revolta na população local que, como conseqüência, decidiram por expulsarem-nos de Constantinopla  durante o ano de 1182.

Enquanto isto, a economia medieval acontecia da seguinte forma: A economia medieval (feudalismo) predominantemente agrária, era estruturada em torno das relações servis e fraca circulação de moedas. As relações servis, consistia em o camponês ser responsável pela produção  agrária, mas,  também dever obrigações e tributos aos senhores dos domínios territoriais ao qual se encontravam vinculado e produzindo. O tributo era pago em dias de trabalho nas terras dos senhores (corveia), ou com produtos agrícolas. Os excedentes da produção agrícola eram comercializados em feiras ou “burgos1próximos às aldeias camponesas.

Até que, eis que surgem as cidades e os “Movimentos Comunais”, esses movimentos consistiam na luta das cidades em favor de sua autonomia, entre os séculos XI e XIV, e a partir de então, pode-se notar o início do processo de evolução da sociedade européia.

As cidades que possuíam autonomia política , jurídica e fiscal eram chamadas de Comunas e seus habitantes “homens livres”. A “Comuna” obtinha autonomia pela força ou comprando seus direitos aos senhores. Exemplos de regiões mais importantes que se inseriram nos movimentos comunais foram: a região de Flandres (norte da Bélgica – onde as pessoas que falavam o holandês eram denominadas flamencas pela população local) , a Península Itálica com suas cidades-estados, e o Norte da Alemanha.

Nestas cidades se encontravam as “Corporações” de ferreiros , carpinteiros, tecelões, etc. Esses profissionais desenvolviam seus ofícios sob um sistema de hierarquia que consistia em duas figuras bem evidenciadas, a do “mestre” e do “aprendiz”. O ofício contava com o bom desempenho de seus executores que selecionavam as matérias-primas e possuía a estimativa do tempo que seria desprendido para a execução do trabalho, assim como, o domínio da técnica que seria empregada para desenvolver e concluir o trabalho.

O Comércio Marítimo e Comércio Interno-europeu

Durante o século XIII, no ano de 1204, a partir da “quarta cruzada” , os comerciantes italianos se estabeleceram definitivamente em Constantinopla fortalecendo, assim, as “rotas comerciais” que objetivavam a aquisição das riquezas orientais como tapeçaria, tecidos finos e especiarias para comercializá-los na Europa.

Portanto, foi o “comércio marítimo” que trouxera inúmeras modificações a economia do mundo medieval.

As “Rotas Comerciais” se fortaleceram, e cada vez mais os ocidentais almejavam consumir os produtos trazidos do Oriente. Logo, é imprescindível a exigência das moedas para as transações comerciais e as procuras por metais preciosos se tornaram indispensável.

O comércio marítimo incita o comércio no interior europeu que assume feições inter-regionais e internacionais, privilegiando, principalmente as cidades-estados da Itália , da região de Flandres e do Norte da Alemanha, como já vimos, anteriormente. Assim, grandes fortunas vão se formar em torno dos “mercadores” e certas cidades que vão aderir novos significados dentro das estruturas econômicas.

Revolução comercial, segundo Jacques Le Goff:

O “mercador- banqueiro” (meados do século XIII) se serve de letras de câmbio, operação de crédito, de contrato de seguros, de livros-caixas. Este, se destaca dos comerciantes itinerantes que circulam pelas diferentes rotas comerciais.

Componentes da nova economia propiciada pela Expansão Comercial: o mercador, o mecena, o mestre e o aprendiz, a arte e o ofício

O mercador se torna uma prévia de banqueiro dos dias atuais, e possui uma “sede” que eram redes de funcionários distribuídos por toda a Europa. Um bom exemplo de “marcadores-banqueiros” de grande êxito foram das famílias dos Médici de Florença, dos Bardi e dos Peruzzi. Os Médici foram “mecenas” e grandes patrocinadores da Renascença Italiana.

Renascença é um termo moderno do século XVI para se referir as grandes mudanças culturais e manifestações artísticas que se iniciaram na Itália e se expandiram por toda a Europa entre os séculos XIV e XVI. Tendo grandes expoentes nas artes como Petrarca para as letras , e Michelangelo e Leonardo da Vinci nas artes plásticas, dentre outros. Mas, certamente, a Renascença é um tema que merece uma abordagem maior e especial , portanto, abordarei esse tema, inserido na Idade Moderna , mais adiante.

A Cidade é o  Locus privilegiado para a nova economia e  Economia de Mercado e Vida Material convivem lado a lado :

“Vida Material” é o autoconsumo na esfera da família e da aldeia, e, “Economia de Mercado” pressupõe  vínculos com o mercado e extrapolam  a esfera do autoconsumo.” (Fernand Braudel , 1985)

Os “modernos em transição” que tiveram na forma de vida do camponês, quase autônoma e quase autárquica , e, na economia de mercado e um capitalismo em expansão. Contudo, temos que ter cuidado e analisar a “transição dos modernos” em seu conjunto fragmentado.

Segundo Braudel : “a economia moderna” é um fragmento de um vasto conjunto.”

Nota:1 Burgos: Na Idade Média, castelo, ou casa nobre, ou mosteiro, etc., e suas cercanias, rodeados por muralha de defesa, muitos dos quais vieram a transformar-se em cidades.

II – Estruturas Sociais:

A sociedade medieval era classificada segundo a idéia de “tripartição” e destacava os seguintes grupos sociais: o clero (os que oravam e intercedia pelo homem na luta espiritual entre o bem e o mal), a nobreza (homens de guerra que defendiam a morada na terra), e os camponeses (que laboravam a terra e colhiam os frutos para alimentar a todos). As atribuições das funções de cada grupo eram impostas pela Igreja segundo os desígnios de Deus. Nessa sociedade o homem não existia sozinho, ele precisava estar inserido num grupo, e era o grupo que se expressava, portanto não havendo vozes individuais.

A “Tripartição” das classes sociais no mundo medieval não transcorrera perfeitamente bem,  e o antagonismo foi marcante entre as suas classes e entre os indivíduos dentro da própria classe. Os camponeses não eram felizes pelas imposições impostas à eles por seus senhores – laicos ou eclesiásticos – ; os  nobres digladiando entre si ou com outros reinos; a própria Igreja que também disputavam as terras e as riquezas como veremos adiante nos conflitos gerados entre Papado e o Sacro-Império Romano Germânico,e, ou, perseguindo os ditos grupos “heréticos”, em especial aos “cátaros” e aos “valdenses” , estes,  ambos religiosos que acreditavam que a Igreja deveria ser desprendida de luxos e riquezas, portanto de serem alvos de perseguição dentro da própria ordem.

Para a sociedade de tripartição o comerciante era aquele que exercia uma função secundária e possuía um papel muito pouco relevante ao quadro social da época, como relata, no século XIII, São Tomás de Aquino – um importante intelectual e eclesiástico de sua época – , em um de seus manuscritos e reafirmando, desse modo, os fundamentos das hierarquias tradicionais da sociedade de seu tempo, minimizando, ao mesmo tempo, o papel do comerciante numa sociedade ordenada segundo os desígnios divinos, ele distingue dois tipos de comércio: o comércio necessário – o comércio do sal –, e o comércio do supérfluo – o comércio das sedas e das especiarias – como sendo uma fonte de vícios e corrupção. Entretanto, este comércio supérfluo foi o maior gerador de fortuna na Europa daquela época.

Nesta sociedade de ordens , o individuo apenas existe se inserido numa corporação ou grupo. Desse modo, vale destacar a questão das “guildas”.

As “guildas” foram grupos criados por acordos e consentimento dos seus membros e , nesse sentido são associações livres. Elas têm por objetivo o auxilio mútuo em caso de indigências , incêndios e náufragos, ou seja, uma assistência social em sentido amplo. Exemplo de guildas mais antiga seria a dos “mercadores itinerantes do século XI”.

As transformações sociais:

As transformações sociais se deram sob um conjunto de acontecimentos, mas o mais importante fora o econômico. A economia ditava as cidades e tinha como figura fundamental o “mercador”. Esse mercador, que não se inseria em nenhuma das classes sociais sob ordem de tripartição, se tornara um homem muito rico e sua riqueza era gritante e o processo da aquisição dessa riqueza seguia uma linha continua sem interferes onde a riqueza multiplicava a olhos vistos.

Por mais que não agradasse aqueles que dominavam a “sociedade medieval”, a nova hierarquização das classes fora inevitável e, tão logo, os critérios de riqueza passam a posicionar um novo grupo social com riquezas individuais através de um novo remanejo de elementos sociais, ou seja, novos grupos sociais não apenas ascendem, mas se afirmam na “sociedade medieval”.

A ascensão da Periferia do Mundo Feudal

O antagonismo decorrente dessa relação entre novas formas de riqueza e antigas estruturas sociais será um dos pontos mais cruciais do mundo moderno.

Na complexidade do terreno das estruturas sociais, devemos considerar as particularidades de cada região da Europa, já que as transformações sociais seguem ritmos diferentes em diferentes reinos como na França, na Inglaterra , na Alemanha , na Itália, etc.

Certamente, o centro da civilização medieval se encontrava nas regiões da França que se destacava por sua “arte gótica” e a “filosofia escolástica”, cujo apogeu se deu entre os séculos XII e XIII , contudo as mudanças no que diz respeito às novas formas de comércio iniciam-se sobretudo pela “periferia do mundo feudal” como é o caso da Península Itálica.

Os genoveses, venezianos e paduanos se instalaram e Constantinopla e foram os mercadores pioneiros na rota do comércio marítimo entre Europa e Oriente.Portanto, as cidades do norte da Itália  tornaram-se , a partir do século XIII, lugar de riqueza e de inovações devido à importância crescente do comércio.

Os mercadores criaram as “sedes” de comércio espalhados por toda Europa, e, tornam-se importantes do ponto de vista da riqueza que foram capazes de acumular, aliás, riqueza esta que gerava fascínio e prestigio, mas também desconfiança e conflitos.

Papado x Sacro-Império:

A península Itálica foi , durante boa parte da Idade Média, o palco das disputas entre Papado e o Sacro-Império Romano Germânico – o nome dado a partir do século XV ao império da Europa Central fundada em 962 por Oton I, o Grande, e dissolvido em 1806 –, e, por boa parte da Idade Média, os imperadores do Sacro-Império lutaram contra o Papado e suas aspirações a supremacia –.

Essas disputas territoriais aconteciam pela presença de um grande número de cidades-estados desejosas de manterem as suas autonomias.

Com estruturas sociais e políticas muito diferentes daquelas do centro do mundo medieval, o norte da Península Itálica se torna , sobre tudo, a partir de século XII, a principal frente de batalha das pretensões imperiais contra o Papado. Essas lutas vão contribuir para o enriquecimento do império e fortalecimento dos príncipes.

A Europa se dividiu em campos antagônicos em relação à luta entre sacerdócio e imperador, e havia aqueles que reis e reinos deveriam ser submetidos a um único imperador cristão; ou, que o Império fosse apenas um braço secular do Papado; ou ainda, que houvesse a separação de poder temporal e o poder espiritual , sem que um estivesse submetido ao outro.

Apesar de suas inspirações para reinar toda Europa, o imperador só foi de fato, reconhecido na região da Alemanha dividida em inúmeros principados e cidades.

Vence o Sacro – império:

O Sacro-Império afirma sua autonomia em relação ao Papado, porém acompanha o aumento de poder dos príncipes como afirma a “Bula de Ouro”.

A “Bula de Ouro” – 1356 – decreta que o imperador não mais depende da aprovação do Papado, e, é o conselho formado por oito príncipes que passaram eleger o imperador, porém , os títulos de príncipe permanecem hereditários. Ela , também, estipula que os príncipes têm o poder de constituir exércitos, de cunhar moedas, de fazer a justiça e de criar impostos , por conseqüência disto, o poder do imperado se torna , cada vez mais um poder nominal, mas, ainda assim oferece prestígio e status ao Imperador.

No início da Idade Moderna, o titulo de Imperador será disputado em eleição por Francisco I da França e Carlos I da Espanha que se tornará Carlos V, o último grande imperador do Sacro-Império.

As alianças entre a dinastia dos Habsburgo (Carlos V) e dos reinos de Castela e Aragão , a partir de 1479, formará a Espanha , e, o imperador do Sacro -Império se tornará, ao mesmo tempo, imperador da Espanha, Sardenha e Sicília ao sul da Itália, América, Aragão, Países Baixos e Germânia. O Império vai ser uma peça muito importante para a compreensão do mundo moderno.

França e emergência de classes

A vida da cidade e o destino do homem são fruto da relação conflituosa entre a liberdade humana e a fatalidade do destino, porém, como explicar a nova organização social assinalada por uma nova fonte de riqueza.

Após a acumulação de fortunas em atividades comercias ou financeiras , o comerciante vai buscar o Status e o prestígio, através da compra de terras , de cargos e de títulos de nobreza.

Certamente, muitos comerciantes viram no mercado e comércio um meio para alcançar a nobreza através do acúmulo de riquezas que lhes propiciariam o prestigio ao patrocinarem o crescimento e esplendor de suas cidades, além de aquisição de terras e camponeses, uma exigência para se pleitear o titulo de nobreza, algo muito comum na França por exemplo. E, a venda dos títulos de nobreza a essa nova classe socioeconômica era um negócio bem lucrativo para o rei que continuava com a “velha nobreza” e a “nobreza de toga” em torno de si.

Aos compradores desses títulos de nobreza, eram-lhes imposto que se abdicassem da antiga profissão ao ato de se tornarem nobres. Mas, ser um comerciante era algo que exigia muitas habilidades como certos talentos para o cálculo, e o ter previdência ou mesmo dom, e, não eram todos os integrantes de uma família de mercadores e mecenas que almejavam para si os títulos de nobreza, desse modo, tomaram-se grandes investidores e mecenas,  pessoas privilegiada com grande destaque na sociedade em que viveram como ,por exemplo, os Médici de Florença na Itália.

Itália e o Renascimento do século XVI

As cidades renascentistas recolocaram na ordem do dia a discussão política sobre o governo da cidade e sobre as qualidades do bom governante. Desse modo, voltando se para as Antiguidades Clássicas e considerando-se, por isso, como responsáveis pelo renascimento da verdadeira civilização, as cidades reafirmam a dimensão política como elemento essencial do homem, assim como os antigos que definiam o homem como animal político.

O homem individualizado passa a responder por si mesmo, mas também  a questionar sobre o seu papel no mundo e o seu existir.

Essa individualização do homem já é percebida a parti do século XIII quando  a Igreja passa a  pregar a salvação individual; conjunta a retomada do direito romano entre os séculos XII e XIII, que desconhece a realidade jurídica das corporações  e postula o individuo como único ente do direto. Portanto,seria a retomada da difusão do direito romano um dos elementos mais importante na dissolução da ordem feudal.

As novas estruturas econômicas geram impasse e conflitos que vão propiciar algumas rupturas, mas também, permanência sob uma nova forma de apresentar do antigo. Portanto, será o antagonismo decorrente das relações entre novas formas de riqueza e antigas estruturas sociais, um dos pontos mais cruciais do mundo moderno.

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Comentários

  • Salvador Alfredo  On maio 18, 2012 at 05:15

    O homem tinha que star inserido num dos gropos por que mesmo agora o homem vivendo sozinho nao consegue resolver os seus próprios problema deve estar dentro de uma sociedade.

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