A independência do Brasil

Em Lisboa, os ares sopram dúbios em direção ao reino português, e o rei, muitas vezes tido um paspalhão e medroso aos olhos dos franceses, primazia pelos acordos e uma política apaziguadora de meios termos, que viesse  agradar Bonaparte e ao mesmo tempo a Inglaterra, sem que ambos soubessem disso. E, segundo Eric Hobsbawm, assim como o rei de Portugal mantinha certa cordialidade com nações rivais, espanhóis e franceses a partir do “Tratado de Fontainebleu” marcham na calada rumo a Lisboa para submeter o reino português ao espanhol, pois,  a hegemonia napoleônica estava longe de ser uma quimera.

A possibilidade de a casa portuguesa ter uma corte no além mar já havia sido pensada antes, mas, mais naquele momento, diante do opressor da Europa.  Dom João selou sua aliança final com a Inglaterra , e no dia 16 de novembro de 1807, a esquadra inglesa , com sete mil homens, chega a Lisboa para cuidar da viagem da família real até o Brasil. Desse modo,  em 30 de Novembro de 1808, a esquadra real composta  de oito naus, três fragatas, dois brigues, uma escuna de guerra, uma charrua de mantimentos e mais vinte navios mercantes da marinha britânica, zarpou com destino ao Novo Mundo, e , D João VI e sua família segue rumo ao Brasil levando consigo, uma corte de quinze mil pessoas, dentre ministros, conselheiros de estado, oficiais e servidores, fidalgos, militares, nobres e seus familiares, além do aparelho administrativo e burocrático, seu tesouro, secretarias, arquivos e tudo o mais que garantisse o exercício de poder da corte portuguesa  que seria instalada, por prazo indeterminado, no Brasil.

Por mais que o povo português chorasse – como relatou  Schwarcz– a partida de seu rei, sabiam que era o mais prudente, por que o rei não decidira isso sozinho. Certamente, muitos choraram por amigos e familiares que partiram de Lisboa rumo a América, mas também, porque finalmente os terrores de Napoleão pairavam em definitivo sobre os ares dos lusitanos.

Segundo Lúcia Bastos e Humberto Machado, foram,  três meses no atlântico até que pudessem  aportar na Bahia, e mais trinta dias depois, para chegar às terras fluminenses, em dia 8 de março, desembarcando no cais do Largo do Paço(atual Praça XV de Novembro), na cidade do Rio de Janeiro, e adiante, ali estabelecer a nova corte do  reino português. Decerto, o tempo para se preparar a cidade, de modo que suprisse a necessidade da família real e sua corte, fora pouco, entretanto, aos poucos, mas com afinco, a cidade do Rio de Janeiro passa ser moldada ao gosto do rei que não  por acaso, encanta-se com os ares do Brasil. D. João VI, antes tido um rei triste, agora  melhora seus humores e sua saúde. Institui a cidade e demais províncias com a criação de bibliotecas, faculdade de medicina, belas artes, escolas de oficio,  e de prédios públicos.

Segundo Muaze, a corte passa ser custeada, em grande parte, pelos comerciantes de grosso trato – homens possuidores de grande fortuna, muitas vezes construídas pelo comércio ilegal e tráfico negreiro – que em troca de investirem na corte, receberam terras e títulos de nobreza. Artistas, músicos, pintores, escultores e atores europeus dão o ar da graça na terra brasis, ou melhor, na Corte do Reino  e, desse modo, pintam sua beleza e riqueza, além de retratar a família real, sua corte, e a gente brasileira.

Nos anos vinte do século XIX, acontece na Cidade do Porto o movimento “vintista” que pleiteava o retorno do rei junto a corte à Portugal, pois a guerra e Napoleão havia há muito acabado e  o rei não dava o ar de sua graça à seu povo, o “povo do reino”. Os vintistas apoiavam uma política liberal, e temiam o despotismo, e, lembrar da Revolução Francesa remetia-os a sentimentos de mais puro horror, entretanto o maior medo dos vintistas consistia na possibilidade da “metrópole virar colônia” e em definitivo. Após, a Constituição das Cortes, em Lisboa, o rei e sua família vêem-se obrigados a retornar a Portugal, mas antes, deixa seu filho, D. Pedro, príncipe regente, à zelar pela Corte de Portugal no Rio de Janeiro.

Por quatorze anos, o Rio de Janeiro fora a corte do reino português na América, e nesse tempo, não se tem como negar as inúmeras leis que instituíram e estruturaram as políticas econômicas, como abertura de portos, livre comércio, que agora alicerçavam o Brasil que há muito tempo deixara de ser, em absoluto, uma colônia portuguesa para se tornar parte do Reino Lusitano.  Alem disso, muitos portugueses de alta influencia na corte, firmara seus negócios no Brasil, constituíram casamentos com filhas e filhos de brasileiros influentes, alguns portadores de títulos de nobreza dada à riqueza da terra que possuíam, portanto, assim fora formada  uma elite brasileira altamente influente e poderosa.

D. João sabia que o Brasil era um gigante, que agora pensava em seu próprio interesse, e o mais sensato era a construção de um Império Luso-Brasileiro, que certamente tocara a vaidade dos portugueses na Europa. No Brasil, D. Pedro, leva-se pela política da elite coimbrã, cujo maior líder fora Bonifácio. Os coimbrãos, um grupo composto de portugueses e brasileiros, assim denominados por terem estudado na Universidade de Coimbra,  mas que viviam no Brasil,  e apoiava o ideário de um “Império Luso-Brasileiro”. O Brasil elegeu deputados e os enviara as Cortes Portuguesas – concretização do desejo da Revolução do Porto “Vintistas”, em criar Assembléias embasadas em legislação que eliminasse vestígios de despotismos e Antigo Regime –, mas suas propostas quanto a junção de Portugal e o Brasil , e constituição de um Império Luso-Brasileiro, jamais fora considerado, porque  os Vintistas que sequer os levaram a sério, pois não chegaram a um consenso, uma vez  que o grande desejo dos portugueses era que o Brasil voltasse a ser uma colônia portuguesa, que fechasse os portos para outras nações e se submetessem aos portugueses como nos velhos tempos.

Bonifácio adere a elite brasileira – que era composta de maioria brasileira, romântica e apreciadora da literatura referente a Revolução Francesa, no que abordava o ideal de liberdade, entretanto, esta literatura era tida proibida enquanto o caráter despótico napoleônico que a sobrepôs –, e apóia D. Pedro, que sob pressão de, obrigatoriamente, retornar à Portugal, assume uma postura rebelde diante da Corte portuguesa, num gesto que hoje nos é conhecido como  “ O dia do fico”.

Após o célebre Dia do fico, 9 de janeiro de 1822, não demorara a independência política e econômica do Brasil, seria oficializada no dia sete de setembro de 1922.

Evaldo Cabral de Mello enfatiza que a Corte portuguesa no Brasil por beneficiar mais a região centro-sul , resultara na espoliação fiscal – que culminaria nas diversas insurreições que viriam surgir nos períodos regências do Império –   das províncias do norte e nordeste brasileiro. Conclui que a formação de uma burocracia de portugueses e colonos enriquecidos que, principalmente no Rio de Janeiro, e regiões paulistas e mineiras, acabaria, enfim, por liderar a Independência. E, sobre o Brasil ter-se tornado um Estado muito antes de uma Nação, historiadores como Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado, enfatiza-nos que a Independência do Brasil fora uma independência política e territorial. Naquela tempo, via-se nos territórios do Brasil uma grande  diferença no trato administrativo e regional, e certamente, durante o episodio da Independência do Brasil, não havia se criado uma identidade nacional, e sim estatal. Os estados do norte passam a idealizar, então, uma relação com Portugal, uma vez pessimistas com uma política que lhes beneficiassem, enquanto unidade brasileira. Claro, que foram muitos os fatores que influenciaram um ideal separatista nesses estados, sendo um deles o exemplo da fragmentação, em Estados distintos, da América espanhola.

Gosto de ressaltar que, numa opinião muito particular de minha parte, a Independência do Brasil ocorrera  sob romantismo, real, para brasileiros e naturalizados, e abstrato, para os portugueses que não conhecia o Brasil. É bem sabido que a primeira forma de poder cujo  Brasil tenha experimentado, fora sob a égide da Coroa portuguesa, em tempos de corte no Rio de Janeiro, e a continuidade desse poder se dera do mesmo modo, por romantismo, juntos da manifestação política que pleiteava a liberdade econômica e a manutenção da grandiosidade que se revelara no Brasil.

No artigo “A guerra de penas: os impressos políticos e a independência do Brasil”, Lucia Maria Bastos Pereira Neves, revela-nos as intrigas – através dos folhetins e jornais que circulavam na década de 20 do século XIX nas capitais das províncias no Brasil e dos grandes centros urbanos de Portugal – entre portugueses radicais atacando o Brasil, nas prévias do retorno da família real a Lisboa, comparando o Brasil a um gigante sem braços, além de outros termos pejorativos para adjetivá-lo, entretanto, as criticas dos radicais da Revolução do Porto “Vintistas”, não conseguiram ocultar o romance vivido entre o Brasil e D. João VI que, por várias vezes, declamou  que as águas das praias do Brasil eram águas milagrosas, pois faziam bem a saúde e melhorava os ânimos, e que além do mar, o sol, as belezas e  os frutos da terra eram de um bem sem igual a saúde do corpo e do espírito.

Anúncios
Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: